Bingo!...
Sobre tudo e todos. Passará a ser a minha residência permanente. Uma pulsão momentânea? Certamente. Um retorno às raízes? Também. Concluo aqui e hoje um projecto. Inicio outro. May the gods give me the strengh and wisdom... Ao contrário de outros,aqui valerá tudo. Assuntos sérios, outros nem por isso. Agradeço a todos quantos me acompanharam e incentivaram noutras andanças.



Mediterrânea. Dois mil anos de história. Aberta, desde sempre, a todas as inovações. Acolhedora, plural, diversa. Uma cidade para viver e partilhar.
É assim Barcelona, uma cidade, em todos os aspectos, muito tentadora. É inevitável qualquer um render-se, de imediato, às grandes praças aquecidas pelo sol, às colinas manchadas de verde que parecem olhar dia e noite, como que velando-a, para a cidade, às ramblas inundadas de animação de rua e de gente, aos bares cada um com o seu encanto e a sua personalidade (Barcelona é a cidade europeia com mais bares por habitante), aos jardins e parques mediterrâneos. Ao movimento, tout court.
Barcelona tem, justa e merecidamente, fama de ser a cidade mais moderna e vanguardista de toda a Espanha. Não fosse o meu manifesto e confesso desconhecimento das outras cidades europeias tidas unanimemente como ícones do cosmopolitismo, e arriscaria a dizer que Barcelona será a cidade mais cosmopolita de toda a Europa.
Senhora de uma grande variedade de tesouros artísticos, igrejas e grandes nomes relacionados com a arte e arquitectura vanguardistas, é uma cidade que surpreende pelos seus contrastes. A modelação insólita da cidade imaginada pelos arquitectos modernistas Gaudí e Domenech i Muntaner une-se, de forma surpreendentemente harmoniosa com o gótico, com a art nouveau, com as influências árabes. Se calhar justamente por isso Picasso e Miro se hipnotizaram por esta terra, e aqui passaram largos anos das suas vidas.
Além disso, Barcelona tem a vantagem de ser uma cidade humildemente aberta a outras culturas, a povos diferentes. É uma cidade que dá e recebe, que se faz rica e enriquece quem a visita e se deleita com ela.
São imperdíveis as ramblas, a Plaza Catalunya, a Plaza Reial, o bairro Gótico, toda a obra de Gaudí e de Muntaner – a demência da Sagrada Família, as formas loucas da Pedrera ou da casa Batlló e a sobranceria do Parque Güell do primeiro, o Palau de la Musica do segundo, e o famoso e geométrico Eixample dos dois.
A gente de Barcelona é vista como poupada, fria e excessivamente preocupada com o trabalho, pelo resto dos espanhóis. Não é bem assim. Mas também não é de todo mentira. Mas quem vinha, como eu, de pé atrás, rumo a uma cidade desconhecida, e desconfiado em relação ao feitio das suas gentes, a conclusão não pode ser outra que não esta: a Catalunha e as suas gentes fascinam-me.
Não me sentindo com legitimidade e, portanto, deixando para trás qualquer crítica ou sequer juízo de valor a propósito da legitimidade da vontade independentista da Catalunha, para mais numa altura de agitação social motivada pela polémica que gira à volta do novo estatuto autonómico da Catalunha, a verdade é que, a gosto ou a contra gosto os catalães (ainda) são espanhóis. E a verdade é que, neste momento, levo comigo, para Portugal, uma ideia, não digo diferente, mas pelo menos corrigida acerca dos espanhóis.
O ódio visceral e, pior do que isso, politicamente correcto que nós nutrimos pelos espanhóis ilustra bem uma das nossas piores facetas: um nacionalismo bacoco, saloio e deslocado, atrás do qual se esconde tímida e hipocritamente a nossa velha mania para desculpar a mediocridade própria com os hipotéticos abusos do vizinho.
O perigo iminente da “invasão espanhola” é um velho argumento deste tipo de nacionalismo. Qualquer bem pensante da nossa praça faz ponto de honra em menosprezar o que é espanhol e em atribuir a Espanha a razão dos nossos congénitos males. Insultar Espanha é uma espécie de desígnio nacional que qualquer português, qual macho lusitano, tem obrigação de praticar. É engraçado constatar que este é, além do mais, um desígnio que tem unido, ao longo dos tempos, todos, pobres e ricos, a “elite” e o “povo”.
Invejemos ou não, sintamo-nos mal com isso ou não, a verdade é que Espanha é hoje um país pujante, culturalmente próspero e fascinante em certos modos de vida sociais. Na União Europeia, Espanha é um dos Estados com mais forte presença, influência e personalidade, apesar de ser um país feito de nacionalidades diversas e castigado por inúmeras tentativas independentistas.
Espanha, ao contrário do que nós possamos, ou talvez gostaríamos, de imaginar não tem, em relação a Portugal, nem complexos de superioridade, nem complexos de inferioridade nem complexos de coisa nenhuma. Terá, admito, o cidadão comum, défices de conhecimento históricos e geográficos. Mas não só em relação a Portugal, mas também em relação a outros países. E não consta que alemães, ingleses ou franceses façam disso um ideal patriótico. Porque têm mais do que fazer do que andar a olhar para o vizinho.
Podem criticar a péssima qualidade da televisão espanhola, inundada de programas “cor-de-rosa”, podem gozar com a falta de cultura geral do cidadão comum espanhol, podem detestar o facto de o comércio fechar todo para a siesta a seguir ao almoço, podem abominar os filmes hollywoodescos cronicamente dobrados e nnca legendados, podem até gozar descaradamente com o facto de os espanhóis serem talvez o povo que pior pronuncia e fala o inglês (aqui, Nike lê-se niqué e Bruce Springsteen pronuncia-se brucé springuén), porque falamos de factos e não de juízos de valor sobre um povo. Mas, por favor, tenham noção que a crítica disfarçada de inveja é muito feia.
O que me preocupa verdadeiramente não é que Espanha se instale comercialmente no nosso país, porque isso até pode ser bom do ponto de vista económico. Preocupa-me, isso sim, é que nós não tenhamos a capacidade de fazer o mesmo, expandindo e impulsionando as nossas tímidas empresas para além fronteiras, e, ainda por cima, nos desculpemos com o velho argumento “Espanha”. Desculpem lá, mas essa história é já antiga e já deu o que tinha a dar.
Nota final: Decerto seria mais apropriado que aqui discorresse acerca da minha vivência concreta enquanto estudante ERASMUS, das diferenças em relação ao ensino e ao Direito propriamente dito. A verdade é que só terei uma ideia firme e segura de tudo isso quando a aventura acabar. Preferi deixar-vos o relato de como sinto Barcelona, de como vejo os espanhóis. O resto virá depois, com o tempo.
[N.A.- Texto escrito a convite do Jornal Tribuna, da Faculdade de Direito da Universidade do Porto, e publicado na sua edição de Dezembro de 2005.]
Deco foi, para mim, sem a mais pequena dúvida, o melhor jogador que alguma vez passou pelo F.C.Porto. Pela sua garra de campeão, pela determinação inconformada, pela classe dos passes, pelos pezinhos abençoados, pela humildade no espírito de equipa. E é curioso ver como o define, hoje, um jornal desportivo catalão, negando rotundamente o alegado interesse do Barcelona em vendê-lo, supostamente para obter receitas para comprara Lampard ou Henry no final da época, acabando, ao mesmo tempo, com o excesso de médios centros que tem no plantel.
É incrível a resistência inumana, passo a redundância, do corpo humano. Dois meses depois do terramoto que deixou sem vida 70.000 pessoas e reduziu a escombros mais de 150.000 casas no noroeste do Paquistão, os habitantes de Muazaffarabad (uma cidade impronunciável, capital da Cachemira paquistanesa), removendo com as próprias mãos as ruínas, em busca de algo de valor ou à procura de cadáveres ainda soterrados, encontraram uma mulher, afogada pelos escombros, ainda com vida. Naqsha Bibi tem 45 anos e resistiu heroicamente a 65 dias (!!!) literalmente debaixo da terra. Sobreviveu graças à água da chuva filtrada pelos escombros e a alimentos podres que havia no local em que ficou soterrada. É preciso uma força de vontade incalculável.